
Estudos mostram que sons emitidos pelas baleias-piloto fazem orcas mudar de rota e reacendem o debate sobre essa rivalidade nos oceanos
Wagner Edwards, editado por Bruno Capozzi

Durante mais de duas décadas de observações, pesquisadores identificaram um comportamento incomum entre duas espécies de cetáceos: orcas (Orcinus orca) evitam encontros com baleias-piloto-de-barbatana-longa (Globicephala melas), mesmo sem registros de ataques diretos entre elas.
A descoberta foi analisada por cientistas de diferentes instituições, incluindo uma equipe liderada pela bióloga marinha Anna Selbmann, do Centro de Ciência e Aprendizado de Sudurnes, na Islândia. O estudo publicado em janeiro deste ano na revista Science Reports e indicou que os sons emitidos pelas baleias-piloto já são suficientes para alterar o comportamento das orcas.
Os registros foram reunidos em regiões da Islândia e em outros pontos onde as duas espécies foram observadas. A razão pela qual um predador considerado dominante recua diante de um animal menor ainda permanece sem explicação definitiva, embora pesquisadores avaliem algumas hipóteses.
O mistério por trás do recuo das orcas diante das baleias-piloto
A relação entre as duas espécies começou a chamar a atenção da comunidade científica após observações realizadas a partir de 2012. Na época, pesquisadores perceberam que sons de orcas reproduzidos no ambiente natural atraíam baleias-piloto, comportamento que indicava uma forte resposta aos sinais acústicos de outro cetáceo.
Dois anos depois, uma análise conduzida por cientistas ligados ao Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha trouxe outro dado inesperado. Ao revisar encontros registrados entre 2004 e aquele período, a equipe constatou que as orcas deixavam a área quando as baleias-piloto apareciam.

O fenômeno intrigou os pesquisadores porque não havia uma explicação ecológica evidente para esse afastamento. As espécies não disputavam a mesma alimentação, não havia relatos de predação entre elas e as baleias-piloto eram consideravelmente menores que as orcas.
Uma possibilidade levantada pelos cientistas foi a de que conflitos entre as espécies possam ter ocorrido no passado distante, criando uma resposta defensiva mantida ao longo das gerações. No entanto, essa interpretação não possui evidências suficientes para ser confirmada.
Para investigar o comportamento com mais precisão, pesquisadores analisaram dados coletados entre 2007 e 2020 em seis áreas da Islândia, utilizando informações de plataformas científicas e passeios de observação de baleias.
Os resultados mostraram que, em 24 encontros registrados, as orcas evitaram o contato em 68% das ocasiões, afastando-se antes da aproximação das baleias-piloto. Em outros 28% dos casos, as duas espécies entraram em perseguições de alta velocidade, chegando a atingir cerca de 13,5 nós de velocidade, aproximadamente 25 km/h.
Em uma etapa posterior, os cientistas buscaram descobrir se a reação das orcas era causada realmente pela presença das baleias-piloto ou por outros fatores associados aos encontros. Para isso, reproduziram gravações dos sons desses animais para orcas monitoradas por equipamentos de rastreamento.

A resposta indicou uma reação direta aos chamados das baleias-piloto. As orcas alteraram sua organização em grupo, modificaram seus padrões de vocalização, mudaram de direção e aumentaram a velocidade de deslocamento.
De acordo com os pesquisadores, os sinais sonoros parecem desempenhar papel importante na interação entre as espécies. A equipe responsável pelo estudo afirmou que as respostas acústicas funcionam nos dois sentidos: as baleias-piloto se aproximam ao ouvir orcas, enquanto estas demonstram comportamento de evasão diante dos chamados das primeiras.
Ainda não existe consenso sobre o motivo desse receio. Entre as explicações avaliadas está o chamado comportamento de “mobbing”, no qual animais menores se unem para incomodar ou afastar um possível predador. Esse mecanismo é comum em aves, mas também pode ocorrer em outros grupos.
Outras possibilidades continuam em análise, como disputa indireta por recursos ou proteção de filhotes. Apesar da ausência de uma conclusão definitiva, o caso mostra que tamanho e posição na cadeia alimentar nem sempre determinam quem controla uma interação entre animais selvagens.







