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UMA ESPERANÇA PARA MILHARES: USP desenvolve nanopartícula que quase fecha ferida crônica 72 horas

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Rinaldo de Oliveira

Nanopartícula para feridas crônicas criada na USP de Ribeirão Preto praticamente fechou uma lesão simulada em 72 horas. - Foto: Shutterstock

Nanopartícula para feridas crônicas criada na USP de Ribeirão Preto praticamente fechou uma lesão simulada em 72 horas. – Foto: Shutterstock

Cientistas da Universidade de São Paulo, a USP, em Ribeirão Preto, desenvolveram uma nanopartícula para feridas crônicas que apresentou resultados promissores em testes de laboratório. A formulação praticamente fechou uma lesão simulada em células após 72 horas.

O estudo foi feito na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto com financiamento da FAPESP. Os resultados, divulgados pela Agência FAPESP na última quinta-feira, 13 de agosto, foram publicados em maio de 2026 na revista científica Colloids and Surfaces B: Biointerfaces.

A tecnologia foi criada para ajudar no tratamento de lesões como úlceras associadas ao diabetes e escaras comuns em pessoas acamadas. Essas feridas podem permanecer abertas durante meses ou anos, aumentando o risco de infecções e amputações. “Essas feridas são difíceis de tratar porque diversos mecanismos envolvidos na cicatrização deixam de funcionar adequadamente”, explicou a farmacêutica Maria Vitória Lopes Badra Bentley, professora da USP e orientadora da pesquisa.

Duas ações ao mesmo tempo

A nanopartícula combina duas estratégias para combater diferentes fatores que impedem a cicatrização. Uma delas utiliza o resveratrol, composto natural com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. O resveratrol também estimula a migração e a multiplicação dos fibroblastos. Essas células produzem colágeno e outras estruturas fundamentais para a recuperação e o fechamento da pele.

A segunda estratégia atua sobre a enzima MMP-9. Em níveis normais, ela participa da renovação dos tecidos. Nas feridas crônicas, porém, a produção excessiva pode destruir colágeno, elastina e fatores de crescimento necessários para a reconstrução da pele. Para reduzir a ação da enzima, os pesquisadores empregaram uma pequena molécula de RNA, chamada siRNA. Ela consegue silenciar especificamente o gene responsável pela produção da MMP-9.

“Nossa proposta foi associar o resveratrol ao silenciamento da MMP-9 em uma única plataforma para atacar simultaneamente diferentes mecanismos responsáveis pela cronicidade dessas lesões”, afirmou Milena Finazzi Morais, pesquisadora da USP e primeira autora do artigo.

Aplicação em gel

A equipe colocou a nanopartícula lipídica dentro de um hidrogel. A consistência ajuda o produto a permanecer por mais tempo sobre a lesão e permite a liberação gradual dos compostos.

A estrutura também protege os princípios ativos. O resveratrol tem baixa solubilidade em água e se degrada com facilidade. Já o siRNA é instável e pode ser rapidamente destruído por enzimas do organismo.

Nos testes com culturas de células e pele suína, modelo usado por apresentar características semelhantes às da pele humana, a formulação aumentou a retenção dos compostos e melhorou a entrega das moléculas no tecido.

Resultado em 72 horas

A nanopartícula reduziu a produção da MMP-9, combateu o estresse oxidativo e diminuiu substâncias relacionadas à inflamação. O tratamento também restaurou a capacidade de migração dos fibroblastos.

No modelo de cicatrização in vitro, feito com células cultivadas em laboratório, a combinação promoveu praticamente o fechamento da lesão simulada em 72 horas.

Isso ainda não significa que uma ferida em um paciente será curada no mesmo período. A tecnologia está nas etapas iniciais de desenvolvimento e ainda precisa passar por vários testes antes de ser usada em seres humanos.

Próximas etapas

Os pesquisadores pretendem avaliar a formulação em modelos tridimensionais de pele. Depois, serão necessários estudos em animais para confirmar a segurança e a eficácia do tratamento.

Somente após essas fases a tecnologia poderá avançar para ensaios clínicos com pacientes. Ainda não há previsão para a chegada do produto aos hospitais ou às farmácias.

A equipe também estuda combinar as nanopartículas com um gel produzido a partir de plasma rico em plaquetas que seria descartado por hemocentros. A ideia é aproveitar os fatores naturais de crescimento desse material para reforçar a regeneração dos tecidos.

Embora o caminho até o uso clínico ainda seja longo, o resultado abre uma possibilidade importante para o tratamento de feridas que hoje são difíceis de cicatrizar.

Nanopartícula para feridas crônicas criada na USP de Ribeirão Preto praticamente fechou uma lesão simulada em 72 horas. - Foto: Shutterstock

Nanopartícula para feridas crônicas criada na USP de Ribeirão Preto praticamente fechou uma lesão simulada em 72 horas. – Foto: Shutterstock

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