
Mato Grosso registrou 342 feminicídios entre 2019 e o início de 2026, segundo dados do Observatório Caliandra, plataforma do Ministério Público de Mato Grosso que reúne informações sobre violência doméstica e familiar contra a mulher no estado. A maioria dos crimes ocorreu dentro da residência da vítima e foi praticada por companheiros ou ex-companheiros.
A série histórica mostra que o número anual de casos variou ao longo do período. Em 2019 foram 39 feminicídios. O total subiu para 62 em 2020, caiu para 43 em 2021 e voltou a crescer nos anos seguintes, com 47 registros em 2022, 46 em 2023 e 47 em 2024. Em 2025 foram contabilizados 54 casos. Em 2026, até 4 de março, há quatro registros.
Os dados indicam que os crimes são mais frequentes em fins de semana e no período noturno. Entre os dias da semana, o domingo concentra o maior número de ocorrências (60), seguido de sábado (57) e quinta-feira (56). À noite ocorreram 147 casos, contra 108 pela manhã e 81 à tarde.
A residência aparece como o principal local dos assassinatos. Ao todo, 146 feminicídios ocorreram na casa da vítima e outros 75 em residências sem especificação. Em comparação, 40 casos aconteceram em via pública e 17 em propriedades rurais.
Entre os municípios com maior número de registros estão Cuiabá (27), Sinop (23), Rondonópolis (20), Várzea Grande (17) e Sorriso (16). Armas brancas, como facas, foram o meio mais usado nos crimes, com 175 casos. Em seguida aparecem armas de fogo (80) e asfixia ou estrangulamento (30).
Os dados também apontam que, na maior parte das situações, o agressor mantinha ou já havia mantido relação afetiva com a vítima. Companheiros são responsáveis por 122 feminicídios e ex-companheiros por 73. Também aparecem familiares (28) e namorados (18).
As motivações mais registradas envolvem ciúmes, sentimento de posse ou machismo, com 98 casos. Em seguida aparecem menosprezo ou discriminação contra a condição de mulher (76), separação ou tentativa de rompimento do relacionamento (60) e discussões (50).
A maior parte das vítimas tinha entre 25 e 39 anos. Mulheres pardas representam o maior grupo entre as vítimas, com 208 casos, seguidas por mulheres brancas (77) e pretas (36).
O levantamento mostra ainda que muitas vítimas não haviam registrado ocorrência antes do crime. Em 225 casos não havia boletim de ocorrência anterior e em apenas 78 havia registro policial. Medidas protetivas estavam vigentes em 32 casos.
Desafios estruturais
A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra afirma que os dados revelam desafios estruturais no enfrentamento da violência contra a mulher, principalmente no cumprimento efetivo das medidas protetivas.
Segundo ela, é necessário fortalecer o acompanhamento das vítimas pela rede de proteção. “A intervenção institucional não pode se limitar à concessão de medidas judiciais. É indispensável o acompanhamento contínuo, com suporte psicossocial e ações que fortaleçam a autonomia das mulheres”, afirmou.
Ela também defende políticas integradas de prevenção e monitoramento para evitar que casos de violência evoluam para assassinatos. “A articulação dessas ações é essencial para que as vítimas consigam romper o ciclo de violência e para impedir que as agressões cheguem à sua forma mais extrema, o feminicídio”, disse.







