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“Respiração anal” criada no Japão é uma alternativa à intubação de pacientes com dificuldade respiratória

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Monique de Carvalho

Uma nova técnica, utiliza a 'respiração anal' para facilitar a entubação de pacientes - Foto: Free´pikk

Uma nova técnica, utiliza a ‘respiração anal’ para facilitar a entubação de pacientes – Foto: Free´pikk

Pesquisadores japoneses desenvolveram uma técnica de “respiração anal” que permite levar oxigênio ao corpo humano por uma via um pouco convencional. A proposta é usar o intestino como caminho alternativo em situações em que a respiração pelos pulmões fica comprometida.

O método, chamado de ventilação enteral, aposta na capacidade de absorção do intestino, um órgão rico em vasos sanguíneos. A ideia é simples na teoria: introduzir um líquido com oxigênio, que seria distribuído e distribuído pela corrente sanguínea.

Além de chamar a atenção pelo caminho escolhido, a pesquisa avançada com testes em humanos pode abrir uma nova possibilidade para pacientes que não podem ser intubados, algo especialmente relevante em cenários de emergência médica.

O que é ventilação enteral

A ventilação enteral consiste em bombear para o intestino um líquido enriquecido com oxigênio. Diferente do que ocorre nos pulmões, onde a oxigênio entra por meio da respiração, aqui a absorção acontece pelas paredes intestinais.

O intestino é um órgão altamente vascularizado, preparado para absorver substâncias e encaminhá-las rapidamente para o sangue. Esse princípio já é usado em medicamentos administrados por via retal, o que deu base científica à proposta.

A técnica não substitui os pulmões em condições normais. Ela foi pensada como alternativa temporária, especialmente para pacientes com insuficiência respiratória grave que não conseguem passar por intubação.

Como o to

O estudo é liderado pelo médico e pesquisador Takanori Takebe, conhecido por trabalhos com células-tronco e desenvolvimento de fígados em laboratório. A mudança de rota ocorreu após uma experiência pessoal: o pai do pesquisador precisou ser intubado devido a uma pneumonia.

A partir disso, Takebe decidiu explorar outras formas de oxigenação do corpo. A inspiração veio da biologia, mais especificamente de um peixe chamado dojô, capaz de absorver oxigênio pelo intestino.

Com formação em gastroenterologia, o pesquisador levou o conceito para o laboratório. Os primeiros testes foram realizados em ratos e porcos, com resultados considerados positivos para a continuidade do estudo.

Reconhecimento científico

Em 2024, uma pesquisa recebeu o prêmio IgNobel, concedendo a estudos científicos que chamam atenção pela abordagem inusitada, mas que levantam reflexões relevantes. O prêmio é conhecido como uma versão bem humorada do Nobel.

O reconhecimento ajudou a dar visibilidade ao trabalho, que passou a ser acompanhado com mais atenção pela comunidade científica. Apesar do tom curioso, o estudo segue protocolos rigorosos e objetivos bem definidos.

A premiação não significa validação clínica, mas reforça o potencial da ideia e o interesse em investigar caminhos pouco explorados na medicina.

Primeiros testes

O passo seguinte foi dado recentemente, com o primeiro teste da técnica em humanos. Ao todo, 27 homens participaram do estudo inicial, que tiveram como foco avaliar a segurança do procedimento.

Nesse estágio, o líquido utilizado não continha oxigênio. O objetivo era verificar se o intestino conseguiria manter o fluido por um período prolongado sem causar danos ou efeitos adversos relevantes.

Os participantes buscam reter o líquido por cerca de uma hora. Não houve absorção do fluido em si nem complicações graves registradas, apenas desconfortos leves, como episódios de flatulência.

O que ainda falta testar

Com a etapa de segurança concluída, os pesquisadores agora se preparam para testar o líquido enriquecido com oxigênio em humanos. Essa fase será decisiva para confirmar se a tomada de decisão ocorrerá de forma eficaz.

Caso os resultados sejam positivos, a ventilação enteral pode se tornar uma alternativa em situações extremas, como falhas respiratórias em que a intubação não é possível ou apresenta riscos elevados.

A técnica ainda está longe do uso clínico amplo, mas representa uma linha de pesquisa promissora para ampliar as opções de suporte adversos.

Um detalhe cultural que chama atenção

A ideia de usar o intestino como via de oxigenação também dialoga, de forma curiosa, com a mitologia japonesa. Segundo algumas lendas, o corpo humano abriga o shirikodama, uma pequena esfera localizada no ânus.

Essa esfera, de acordo com histórias sobre o kappa, uma criatura do folclore japonês, seria responsável por conter a alma humana. Embora a lenda não tenha relação científica com o estudo, ela costuma ser lembrada em comentários sobre a pesquisa.

Na prática, o trabalho dos pesquisadores se mantém no campo da medicina experimental. Ainda assim, não deixa de ser um exemplo de como ciência, cultura e curiosidade humana às vezes se encontra de maneiras inesperadas.

Técnica pode ajudar pessoas com problemas de proteção. — Foto: Reprodução/RPCTécnica pode ajudar pessoas com problemas de proteção. — Foto: Reprodução/RPC

Só Notícia Boa

Foto destacada reprodução: Freepik