
Douglas é filho de diarista e, após anos de luta, conseguiu ser aprovado e agora tomou posse como diplomata – Foto: arquivo pessoal
Uma conquista e tanto! Filho de mãe diarista e pai pedreiro, Douglas Rocha Almeida, 31 anos, tomou posse como terceiro-secretário da carreira de diplomata do Ministério das Relações Exteriores, e passa a integrar o quadro permanente do Itamaraty.
Antes do concurso, Douglas trabalhou como estagiário no serviço público, foi garantido para custear os estudos e conciliar diferentes atividades enquanto se preparava para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata.
Douglas vai atuar na representação do Brasil no exterior, em consulados, embaixadas e organismos internacionais.Comercial
Primeiras experiências
Natural de Luziânia, em Goiás, Douglas ingressou aos 15 anos no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, em Brasília. No mesmo período, começou a estagiar no Ministério da Fazenda. A bolsa de R$ 290 era usada, principalmente, para pagar o transporte até o Plano Piloto, onde estudava.
No estágio, inicialmente no setor de almoxarifado e, depois, foi promovido para a área de tecnologia da informação. Uma vivência despertou interesse pelo funcionamento do Estado e pelas possibilidades de carreira no serviço público.
Foi também no ensino médio que ele passou a ouvir falar da Universidade de Brasília. Até então, a ideia de cursar uma universidade pública não era uma opção clara.
Universidade, trabalho e escolhas possíveis
A renda da mãe, dona Cida, variava conforme a quantidade de serviços semanais como diarista. Para complementar o orçamento, Douglas trabalhou em uma casa de festas nos finais de semana, primeiro como monitor de brinquedos e depois em outras funções.
Em 2014, conseguiu uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos para cursar Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília. Ao mesmo tempo, iniciou o curso de Letras – Espanhol na Universidade de Brasília.
Para arcar com os custos de transporte entre o Entorno e o Distrito Federal, passei a trabalhar como garçons. O valor recebido nos fins de semana, somado às gorjetas, foi usado para cobrir passagens e alimentação. Em um período específico, também atuoso como tradutor de livros acadêmicos, o que permitiu reduzir a carga de trabalho em bares e eventos.
Diplomata
Durante a graduação em Relações Internacionais, Douglas passou a compreender melhor o que fazia um diplomata. Até então, o termo era conhecido, mas distante da realidade concreta. A possibilidade de seguir essa carreira começou a ganhar forma a partir de 2017.
No mesmo ano, a morte da irmã Thayná fez com que ele pensasse mais sobre o futuro. A diplomacia passou a ser considerada como um objetivo, ainda que distante diante das exigências do concurso e das condições financeiras.
E foi a partir daí que Douglas conseguiu mais duas graduações em 2018 e buscou por formação complementar, para melhorar o currículo.
Mestrado
Após se formar, Douglas foi para o Rio de Janeiro para cursar um mestrado na Escola Superior de Guerra, vinculada ao Ministério da Defesa. Chegou à cidade com recursos limitados e expectativa de receber bolsa de estudos, o que não ocorreu de imediato.
Enquanto aguardava o auxílio, ele se mudou para uma república com outros estudantes e comia apenas nas principais refeições para reduzir despesas.
Com o apoio, Douglas conseguiu melhorar as condições de moradia e alimentação, o que permitiu focar nos estudos e concluir o mestrado.
O concurso
Os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata ocorreram em 2021. Na primeira tentativa, Douglas passou na fase objetiva, mas foi reprovado na prova discursiva de inglês.
Em 2022, ele conciliou os estudos com diferentes trabalhos, incluindo atividades como garçons, freelancer em consultorias políticas e apoio acadêmico na redação de livros. Como não tinha dinheiro para simulados e cursos preparatórios reprovação se repetiu.
A mudança veio com a bolsa-prêmio de vocação para a diplomacia, oferecida pelo Instituto Rio Branco a candidatos negros que tiveram bom desempenho no exame. Com o auxílio de R$ 30 mil, Douglas conseguiu se dedicar integralmente aos estudos.
Um
Em 2023, ficou entre os primeiros apresentados dos não aprovados, o que deu mais força para ele continuar. No ano seguinte, chegou novamente às fases finais, mas não entrou no número de vagas. Em 2025, já morando em Paranaguá, no Paraná, e trabalhando em regime remoto como especialista em políticas educacionais, conseguiu organizar melhor o tempo de estudo.
O resultado saiu em outubro: Douglas estava entre os 50 aprovados, em um universo de 8.861 inscritos. A nomeação ocorreu em dezembro, e a posse confirmou o ingresso no Itamaraty.
Ele contornou que agora a prioridade é garantir mais tranquilidade à mãe, com a intenção de afastá-la do trabalho pesado como diarista.
“São 40 anos trabalhando como diarista, ela tem problemas no nervo ciático, gordura no fígado grau três, doença de chagas. Então, eu queria que ela trabalhasse com algo mais leve”, disse Douglas ao Correio Braziliense .

Douglas, na sede do Palácio Itamaraty, quer, agora, aposentar a mãe da profissão de diarista – Foto: Arquivo Pessoal







