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Brasileiro que voltou a andar após a polilaminina desabafa: “Se meu acidente fosse hoje, eu ficaria de fora”

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Lorena Fassina

Bruno Drummond, que ficou tetraplégico após um acidente e recuperou a capacidade de andar, fez um desabafo e pediu agilidade no estudo clínico da polilaminina no Brasil. - Fotos: Reprodução/Instagram/@bfdrummond

Bruno Drummond, que ficou tetraplégico após um acidente e recuperou a capacidade de andar, fez um desabafo e pediu agilidade no estudo clínico da polilaminina no Brasil. – Fotos: Reprodução/Instagram/@bfdrummond

Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, o brasileiro tetraplégico que voltou a andar após receber a polilaminina, gravou um vídeo que mistura desabafo e apelo para cobrar agilidade no avanço dos estudos da substância experimental desenvolvida pela dra. Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  “Se meu acidente acontecesse hoje, eu ficaria de fora”, alertou o Bruno.

Antes o uso compassivo era admitido para lesões completas em prazo de até 90 dias. Dia 14 de abril a Anvisa determinou – com base em críticas da imprensa e parte da comunidade científica – que só iria aceitar uso compassivo da polilaminina para casos de lesão de T2 a T10 em até 72 horas, com aplicação dentro dessa janela, como dizem os critérios do estudo clínico de segurança. E, este mês, a Anvisa começou a negar o uso compassivo a todos os pacientes que não tiveram 72 horas de lesão toráxica.

Pelas regras, Bruno, que sofreu uma lesão cervical, não atenderia aos novos critérios: “Quem teve lesão cervical, quem descobriu que isso existe no quarto dia fica de fora. Se o meu acidente acontecesse hoje, eu ficaria de fora”, desabafou, em tom de alerta.

A história do Bruno

O bancário ficou tetraplégico quando tinha 23 anos, após um grave acidente de carro em 2018. O Bruno dormia no banco traseiro durante uma viagem com a família entre São Paulo e Teresópolis, no Rio de Janeiro, quando o carro capotou. A lesão na região cervical fez com que ele perdesse os movimentos nos braços e nas pernas.

Bruno recebeu a polilaminina experimental menos de 24 horas depois da lesão e recuperou progressivamente os movimentos. Hoje consegue andar, trabalhar e fazer exercícios. O caso dele é o mais expressivo entre os participantes do primeiro estudo piloto realizado com seres humanos. “Eu tive a oportunidade de voltar a ser uma pessoa ativa, independente”, contou o bancário em uma audiência no Senado.

Agora, oito anos depois do acidente, Bruno usa a própria história para pedir que o processo científico avance mais rapidamente e que outras pessoas tenham a oportunidade de participar dos estudos. “Estamos quase em setembro e até agora nenhum paciente foi captado. Eu estou extremamente desapontado com isso”, afirmou.

O que está acontecendo

A Anvisa autorizou em 5 de janeiro de 2026 o estudo clínico de fase 1 da polilaminina. A previsão é incluir cinco pacientes entre 18 e 70 anos com lesões agudas e completas da medula torácica, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica e possibilidade de receber a substância em até 72 horas após o trauma, para avaliar a segurança do medicamento experimental.

Bruno disse que está frustrado com a demora para que os primeiros pacientes sejam incluídos: “A fase 1 do estudo clínico da polilaminina foi aprovada pela Anvisa em janeiro. Estamos quase em setembro e até agora nenhum paciente foi captado”, disse.

E o registro público do estudo no ClinicalTrials.gov aparece com o status “not yet recruiting”, ou “ainda não recrutando”. A informação, foi atualizada pela última vez em 3 de fevereiro.

Cobrança não é para pular etapas

Apesar da frustração, Bruno fez questão de deixar claro que não está pedindo que a polilaminina seja liberada para toda a população sem estudos. Ao contrário.

“O estudo precisa acontecer. É ele que vai trazer a comprovação, é ele que vai permitir que um dia isso chegue a todo mundo do jeito certo”, afirmou. E resumiu a cobrança em uma frase: “Não é para atrasar, é para avançar.”

A ressalva é importante porque a polilaminina continua sendo um tratamento experimental.

Publicado em revista científica

O primeiro estudo piloto revisado por pares foi publicado em 4 de agosto de 2026 na revista científica Spinal Cord, do grupo Nature. O trabalho acompanhou oito pacientes com lesões traumáticas completas da medula que receberam uma aplicação intramedular de polilaminina.

Entre os pacientes que sobreviveram e puderam ser acompanhados, foram observadas recuperações neurológicas, e Bruno apresentou uma das evoluções funcionais mais expressivas.

Porém, o artigo científico alerta que o estudo foi pequeno e não teve grupo de controle. Por isso, não é possível afirmar cientificamente que a polilaminina foi a responsável pela recuperação dos pacientes. E melhoras espontâneas também não podem ser completamente excluídas.

Pesquisa começou há quase 30 anos

A trajetória da polilaminina começou no fim dos anos 1990 com as pesquisas de Tatiana Coelho de Sampaio e da equipe da UFRJ. A substância é produzida a partir da laminina, proteína encontrada naturalmente no organismo. Estudos realizados em laboratório e em animais indicaram potencial para favorecer processos relacionados à regeneração do tecido nervoso.

O desenvolvimento passou depois a contar com a participação do laboratório brasileiro Cristália, responsável pelo produto que está entrando na etapa regulatória de estudos clínicos.

Se a fase 1 apresentar resultados satisfatórios de segurança, o desenvolvimento poderá avançar para estudos maiores, destinados a avaliar de maneira mais consistente a eficácia da polilaminina.

“Esperança que isso mude”

Depois de cobrar mudanças, ele terminou o desabafo sem abandonar a esperança:

“Eu tenho esperança de que isso mude.”

Assista ao vídeo do desabafo do Bruno:

SNB