
Representantes da Prefeitura de Colíder e da Acmar conhecerem em Cuiabá experiências de outras associações, economia solidária, logística reversa e novas possibilidades de geração de renda
Catadores de Colíder participaram, na sexta-feira (30/10), do Encontro Estadual Pró-Catadores MT, realizado no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá. Promovida pelo Sebrae/MT, a programação reuniu 210 profissionais, entre catadores, gestores e representantes de 23 associações e cooperativas de 13 municípios. Colíder foi representado pelo secretário municipal de Assuntos Fundiários e Meio Ambiente, Eliel Mota de Souza, pela presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Colíder (Acmar), Maria de Oliveira, e associados da entidade.
O encontro discutiu temas ligados ao cotidiano das organizações de reciclagem de Mato Grosso, entre eles gestão, economia solidária, logística reversa, resíduos eletroeletrônicos, legislação, sustentabilidade e alternativas para aumentar a renda obtida com materiais que, de outra forma, seriam descartados.
Para Maria de Oliveira, participar da programação significou ter acesso a informações que ainda não faziam parte da rotina dos associados. “Gostei muito do evento porque fiquei sabendo de muitas coisas que a gente não conhecia, inclusive direitos que temos. É bom participar desses encontros porque a gente aprende”, avalia.
A Acmar conta atualmente com 18 trabalhadores. Segundo Maria, a rotina dos associados começa cedo. Ela, por exemplo, sai de casa por volta das 6 horas e permanece no trabalho até aproximadamente as 16 horas, realizando, ao lado dos demais integrantes, a separação dos materiais no barracão e no pátio.
Maria aponta que o resultado dessa atividade pode ser medido também pela quantidade de resíduos que deixa de seguir para a destinação final. “É um trabalho muito bom para o município porque muitos materiais deixam de ir para a vala. Aquilo que conseguimos separar pode ser aproveitado”, explica.
TROCA DE EXPERIÊNCIAS
O secretário municipal de Assuntos Fundiários e Meio Ambiente, Eliel Mota de Souza, diz que um dos principais ganhos proporcionados pelo encontro está no contato dos trabalhadores de Colíder com experiências realizadas em outros municípios. “Eles trocam conhecimento, conhecem catadores de outras cidades e regiões e veem outras formas de trabalhar. A economia solidária foi bastante discutida. Esse contato ajuda a associação a enxergar outras possibilidades para a atividade”, pontua.
Colíder está entre os dez municípios de Mato Grosso contemplados pelo Pró-Catadores. Criado pelo Sebrae/MT em 2025, o programa trabalha a qualificação da gestão técnica, operacional e financeira das organizações, além de apoiar a regularização das entidades.
Eliel acrescenta que a Prefeitura de Colíder apoia a Acmar com equipamentos, estrutura e suporte logístico e financeiro. “O município procura apoiar naquilo que é possível. Além da estrutura e dos equipamentos, existe esse trabalho de aproximar os catadores de capacitações e oportunidades que possam melhorar a organização da associação”, explica.
Segundo a analista do Sebrae, Carol Zimmermann, os encontros permitem que os trabalhadores apresentem problemas que muitas vezes permanecem restritos ao cotidiano das associações. “Aqui eles podem conhecer oportunidades que ainda são desconhecidas, questionar sobre legislação, apresentar necessidades e dificuldades e levar essas demandas às pessoas envolvidas com o projeto”, ressalta.
Carol chama atenção para a educação ambiental. Parte dos materiais que chegam às associações acaba sendo rejeitada por causa da separação inadequada feita antes do descarte. “Existe um número muito grande de rejeitos que chega às associações e que poderia se transformar em renda se fosse separado corretamente pela população. A renda dos catadores e os resultados positivos para a sociedade também dependem da participação de todos”, relata.
NOVAS FONTES DE RENDA
A programação do encontro em Cuiabá apresentou alternativas de aproveitamento dos resíduos eletroeletrônicos. Thiago Pegorini, da EcoDescarte, abordou formas de transformar esse tipo de material em receita para cooperativas e associações. Segundo ele, conhecer o valor dos equipamentos, saber o que pode ser reaproveitado e identificar os canais adequados de comercialização são etapas fundamentais. “Parece óbvio dizer que eletrônico tem valor, mas entre saber disso e conseguir colocar em prática existe uma distância. Nosso trabalho é encurtar essa distância e mostrar o que vale a pena reutilizar, desmontar ou comercializar”, explica.
Pegorini também defende que equipamentos descartados por órgãos públicos possam ser destinados às organizações de catadores, criando uma fonte adicional de receita. Ele relata que experiências desse tipo já permitem que cooperativas comercializem lotes de computadores e outros materiais com valor econômico. “Quando esse material vai para uma cooperativa ou associação, o valor deixa de ficar parado e passa a gerar renda para quem trabalha diretamente com reciclagem. É uma experiência que pode ser replicada”, avalia.
O promotor Carlos Eduardo Silva, do Ministério Público de Mato Grosso, aponta a troca de conhecimento como outro resultado relevante da reunião de trabalhadores de diferentes cidades. “Quando os catadores se reúnem, eles trocam experiências e vivências, e as boas práticas acabam se disseminando entre as cooperativas e organizações. O catador também precisa entender que o trabalho dele é um negócio”, observa.
Carlos Eduardo, que atua na Promotoria de Meio Ambiente Urbano e de Assuntos Fundiários de Cuiabá, cita a experiência da Capital e de Várzea Grande, onde os dois maiores lixões foram fechados e houve um processo de transição que envolveu os trabalhadores da reciclagem. Para o promotor, as organizações precisam continuar inseridas na nova estrutura de gestão dos resíduos. “A ideia é que a destinação final seja feita em local adequado e que os catadores sejam incorporados nesse processo, trabalhando na triagem e também em outras formas de educação ambiental”, informa.
CENÁRIO DA RECICLAGEM
Os debates do encontro também foram sustentados por dados que mostram a dimensão do desafio da gestão de resíduos no País. O Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, e mais de 29 milhões de toneladas são descartadas de forma inadequada em ruas, rios, lagos, praias e áreas de mata.
Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos citado no evento, apenas 8% dos resíduos são reciclados. Em Mato Grosso, levantamento apresentado pelo Sebrae/MT aponta que as cooperativas cadastradas processam, juntas, uma média de 620 toneladas de materiais recicláveis por mês.
O diagnóstico também identificou limitações de estrutura. Mais de 60% das entidades possuem galpão próprio e frota para coleta, mas apenas metade dispõe de equipamentos básicos, como prensas, balanças e esteiras de triagem. A falta desses recursos interfere diretamente na produtividade e na capacidade de ampliar a renda dos trabalhadores.
Redação: Assessoria







