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MATO GROSSO DO NORTE? Humorista propõe a criação de novo Estado e cuiabanos vão a loucura

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Mato Grosso do Norte? Entre o PIB da soja e o delírio da emancipação, Emerson Ceará toca em um desejo adormecido e polêmico. Vídeo explodiu de views nas redes sociais e você pode conferir no final deste artigo.

AutorVicente Delgado Jornalista

Humorista propõe a criação do Mato Grosso do Norte e cuiabanos vão a loucura

Se já não bastasse a confusão secular entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que até hoje faz muita gente errar o endereço em correspondências e confundir onde fica o Pantanal, agora inventaram mais essa para testar a memória dos brasileiros nos vestibulares de Geografia.

Quando todo mundo achava que a partilha do mapa do Centro-Oeste estava devidamente resolvida e superada, o bom humor tratou de acender uma fagulha que há décadas ronda o imaginário popular e os grupos de WhatsApp do agronegócio: e se a locomotiva da produção decidisse andar com as próprias pernas?

Bastou o humorista Emerson Ceará encostar o carro no acostamento da BR-163 e apontar para uma placa de trânsito para reacender uma daquelas conversas que todo mato-grossense já ouviu numa mesa de bar: a criação de um novo estado. Com a convicção de quem discursa em praça pública, ele cravou:

“Povo do Mato Grosso, eu estou a caminho agora de Lucas do Rio Verde. Eu tenho uma proposta incrível: nós não precisamos do Mato Grosso do Sul, nem de Cuiabá e o seu outro lado. Tem um projeto para nós fundarmos a partir de agora o Mato Grosso do Norte. Seremos independentes!

Mato Grosso do NorteNa geopolítica bem-humorada de Ceará, o organograma do novo ente federativo já nasceu pronto:

  • Sinop assume o posto de capital;
  • Sorriso vira a “capital das pessoas felizes”;
  • Lucas do Rio Verde abriga o próprio “Planalto”.

A piada diverte, mas cutuca uma ferida antiga. Historicamente, Mato Grosso já viu uma metade do mapa ir embora em 1977 com a criação de Mato Grosso do Sul. Desde então, o Norte e o Médio-Norte viraram as locomotivas globais do agronegócio, regiões onde se colhem safras recordes de soja e milho, enquanto a sede administrativa continua a centenas de quilômetros de distância, no calor histórico e burocrático de Cuiabá.

A proposta de criar o “Mato Grosso do Norte” pode soar absurda, mas e se a brincadeira virasse realidade? Quem ficaria com o quê?

A nova partilha dos títulos (caso o delírio aconteça)

Se a canetada passasse e o novo estado fosse desenhado no mapa, os ministérios e títulos honoríficos precisariam ir muito além do trio citado por Ceará:

  • Sinop (A capital de fato e de direito): Já acostumada a polarizar o comércio, a saúde e os serviços de dezenas de municípios vizinhos, Sinop não aceitaria nada menos que a sede do Executivo. Seria a Brasília do Nortão, só que com caminhonetes 4×4 no lugar de carros pretos oficiais.
  • Sorriso (Ministério da Fazenda e da soja): O título de “capital das pessoas felizes” é simpático, mas a realidade é mais prática: com um dos maiores PIBs agrícolas do planeta, Sorriso seria o cofre do estado. Felicidade ali é ver o indicador de sacas e o clima colaborando.
  • Lucas do Rio Verde (O Planalto da eEficiência): Transformar Lucas no “Planalto” faz sentido. A cidade virou vitrine de tecnologia, agroindústria e industrialização do milho (etanol e DDG). Seria a sede dos tecnocratas e do planejamento estratégico.
  • Nova Mutum (Ministério da Proteína e Logística): Primeira parada da rota para quem sobe a serra, Mutum não ficaria para trás e exigiria o controle da industrialização de carnes e dos terminais rodoferroviários.
  • Alta Floresta (Ministério do Ecoturismo e da Transição): Representando a transição do Cerrado para a Amazônia, cuidaria das reservas, dos créditos de carbono e do turismo de observação.
  • Cuiabá (O lado de lá da cerca): Para a capital histórica, restaria o papel de vizinha imperialista rejeitada pelo discurso separatista: guardiã do patrimônio histórico, da cuiabania raiz, da Maria Taquara e do peixe ensopado, assistindo de longe à turma do Chapadão governar a si própria.

Provocação necessária: sonho dourado ou pesadelo burocrático?

A tese de que “o Nortão sustenta o Estado e não precisa de Cuiabá” é música para os ouvidos do bairrismo local. Porém, na prática, a emancipação traria de brinde todo o pacote federativo brasileiro: Assembleia Legislativa novinha, Tribunal de Justiça próprio, Tribunal de Contas, secretarias intermináveis e centenas de cargos comissionados.

Aquilo que o produtor rural mais critica em Brasília e Cuiabá acabaria replicado na própria vizinhança.

No encerramento do vídeo, Emerson Ceará resumiu o plebiscito com precisão quase eleitoral:

“Quem está comigo, está comigo. Quem não está comigo, não está comigo. Se é a favor, me coisa!”, finaliza.

A divisão não vai sair da placa da rodovia tão cedo, mas a discussão serve de espelho: enquanto o eixo da BR-163 acelerar mais rápido que a capacidade do poder público de entregar infraestrutura, a ideia de um Mato Grosso do Norte continuará viva, seja nos discursos de bastidor, seja na ironia impagável do humor.