sexta-feira, 01/03/2024
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BARCO QUE AFUNDOU NO NORTÃO COM TRABALHADOR: MPT vai investigar sobrecarga

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diarionews/Altair Nery

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O Ministério Público do Trabalho (MPT), instaurou inquérito para apurar as denúncias de que funcionários da Construtora Alliance, que pertence a um genro da ex-prefeita de Alta Floresta Maria Izaura Dias Alfonso, estariam sendo submetidos a condições degradantes em suas jornadas de trabalho durante a execução de obras nas aldeias Cururuzinho, Barro Vermelho e Muissu, às margens do rio São Benedito na divisa entre Paranaíta – MT e Jacareacanga – PA.

               Na segunda-feira um barco que transportava funcionários virou, e o motivo pode ter sido a “superlotação”, já que em seu interior havia 10 funcionários e materiais para construção, como pedra brita, treliças de ferro, um freezer e um botijão de gás, dentre outros.

                 O barco não suportou o excesso de peso e afundou, jogando todos os trabalhadores ao rio. Nem todos usavam coletes salva vidas. Segundo os funcionários, havia apenas seis coletes, alguns deles, com peso máximo de 55 kg. Dos 10 funcionários, 9 se salvaram, Leonildo Marques, 44 anos não teve a sorte de seus companheiros e acabou morrendo afogado, sendo encontrado 32 horas após o acidente.
               Em entrevista exclusiva ao Jornal O Diário, o Procurador do PMT, Dr Marcel Bianchini Trentin, confirmou a investigação e afirmou que logo em seguida à denúncia, já iniciaram-se os procedimentos. “Quando chegam casos graves como este, que relatou o transporte irregular de trabalhadores, inclusive com a morte de um deles, a distribuição aqui acaba sendo priorizada, como a situação é muito grave a gente vai dar uma atenção especial a esta denúncia”, afirmou.
                      O primeiro procedimento foi, dentro dos próprios arquivos do MPT, verificar se já houve, em algum momento, alguma investigação sobre a empresa. De pronto foi identificado que em 2013 a Construtora Alliance assinou um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, versando sobre transporte de funcionários. O conteúdo do TAC não foi informado.
                  Segundo dr Marcel, os relatos da denúncia ao MPT apontam para uma situação muito grave e envolvem transporte terrestre de trabalhadores, transporte aquaviário em sobrecarga e sem coletes salva vidas, fornecimento irregular de água potável, jornada extraordinária sem pagamento, ausência total de descanso semanal remunerado, já que pela denúncia, os trabalhadores são liberados para vir à cidade de 30 em 30 dias, trabalho em feriados pagos na mesma proporção das diárias tidas como normais, R$ 100,00 por dia, jornada exaustiva e extenuante, retenção de Carteiras de Trabalho e Previdência Social, condições inadequadas de alojamento, refeições preparadas pelos próprios trabalhadores e o fato de que os trabalhadores tinham que pescar para complementar a alimentação, dependendo de autorização dos índios, já que se trata de uma área de reserva indígena, ausência de equipamentos de proteção individual e retaliação quando há reclamação da situação por parte do empregador, “de fato as denúncias são graves, a gente vai com uma urgência especial em relação as denúncias, nós vamos averiguar isso aí pra ver se a gente consegue erradicar a situação, solucionar da melhor forma possível para o trabalhador”, afirmou.

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 GEDSC DIGITAL CAMERABarco com 10 trabalhadores e 3 toneladas de material vira e um morre

                 Era para ser só mais um dia de trabalho para 10 operários da Construtora Alliance, que atua na construção de uma farinheira, um galpão de castanha, uma casa de apoio e uma casa do artesanato nas aldeias Cururuzinho, Barro Vermelho e Muissu na divisa entre Mato Grosso e Pará, mas o barco de 8 metros em que estavam, carregado com pedra brita, freezer, botijão de gás, ferragens, telhas e mantimentos, afundou por volta da 8 horas da manhã de segunda-feira, 29 de fevereiro no Rio Teles Pires próximo a aldeia, deixando um desaparecido.

               As buscas por Leonildo Marques, 44 anos, duraram 32 horas até que o corpo foi localizado, ontem, por volta de 16 horas. A espera de Eliecir Gomes Lisboa, esposa do trabalhador desaparecido e dos outros 9 colegas de trabalho, foi angustiante. Eles se reuniram na casa da família de Leonildo para aguardar um posicionamento da empresa e informações das equipes de resgate.
          As causas do acidente ainda serão apuradas, mas considerando os relatos dos trabalhadores, a empresa negligenciou em relação à segurança dos seus funcionários. No barco, fabricado para abrigar 4 pessoas com segurança, havia 10, além de um freezer, um botijão de gás, ferragens, telhas, mantimentos e 10 sacos de pedra brita que seria utilizado na construção. Os trabalhadores estimam que, de material, havia cerca de três toneladas.

OS RELATOS

                Quem estava o comando na embarcação era o piloteiro, Jailton Silva Oliveira, 30 anos. Com um peso superior ao recomendado pelo fabricante do barco que é de 1.000 kg, Jailton ainda alertou o mestre de obras, mas recebeu ordem para seguir viagem. “Todo mundo tem um encarregado, eu estava saindo só com os materiais que é 1.500 kg aí ele (encarregado) mandou colocar mais e botar mais 10 pessoas em cima do barco”, disse Jailton.
A necessidade de trabalhar e o medo de perder o emprego fez Jailton partir rio abaixo com os companheiros de jornada, 15 minutos após, o barco bateu em uma pedra e afundou. Dentro além dos 10 homens tinha 22 telhas de 3 metros, 30 sacos de pedra, 16 ferragens montadas de 5 metros, 1 freezer, 1 botijão de gás, ferramentas de trabalho, mochilas e mantimentos.

                De onde aconteceu o acidente, eles desceram aproximadamente 3 quilômetros na corredeira do rio, agarrados ao galão e ao freezer eles conseguiram chegar a margem no rio. “É só desespero é 10 pessoas, e corredeira demais e não tem beirada, não tem nada, e só nós indo pro meio do rio”, lembrou o piloteiro.
O Pedreiro Maxsuel Oliveira Silva, 29 anos, disse que de onde o barco afundou dava mais ou menos umas 600 metros para a margem do rio, mas a correnteza não permitia que eles chegassem à margem, o jeito foi se deixar levar pelo rio. “Só de ver meus colegas gritando socorro não tinha como fazer nada, só deu pra ajudar um porque o outro mesmo não tinha como fazer nada, ninguém tinha como ajudar ele, a gente viu ele afundando, mas lamentavelmente não tinha como salvar a vida dele só dava pra salvar a vida de si próprio mesmo”, lamentou Maxsuel.

             Quando o barco afundou, Leonildo Marques, 44 anos, ainda foi visto pelos companheiros afundando por duas vezes nas águas do Teles Pires, depois disso não mais foi visto pelos outros nove sobreviventes, para eles não havia mais esperança de encontrar Leonildo com vida.” Nós viu ele duas vezes, na primeira vez ele desceu já bebeu água, na segunda vez que ele desceu e já não voltou mais”, disse Jairo de Jesus Bonfim.

             O servente de pedreiro, Jose Nilton Silva Oliveira, 40 anos, também passou por estes momentos de desespero, para ele o pior era ver os colegas lutando e não poder ajudar. Ele mesmo precisou de ajuda para conseguir se salvar. “Eu estava sem o colete, dai o Braz jogou um carote e eu peguei, minha sorte foi o carote que eu rodei no meio do rio, ai não vi mais ninguém”.
A descida foi pelas águas do rio, foi um momento de grande aflição, a correnteza não dava oportunidade deles chegarem até a margem, o jeito era esperar e conversar com os companheiros, um tentando acalmar o outro. “Nós descemos questão de duas horas na água, sempre conversando com o outro para não entrar em desespero, não virar o freezer, tentar acalmar, foi onde a gente conseguiu sair fora da correnteza e pegar mais o manso do rio”, relatou o encarregado de pedreiro Jairo de Jesus Bonfim.

              O pedreiro Ronaldo de Jesus Bonfim, 32 anos, antes era encarregado, ele disse que entregou o cargo justamente por não compactuar com as péssimas condições a que eram submetidos a trabalhar. Além de sempre descer com o barco superlotado, no local, a alimentação, às vezes estragada, também fazia parte da rotina dos trabalhadores. “É precário o alojamento, refeição, nós já chegamos a comer carne estragada, frango, carne já azulando, apodrecendo, porque a empresa não fornecia motor, quando estragava não fornecia outro, e isso ai veio e aconteceu, o que aconteceu é porque eles não estavam dando todo o apoio para equipe lá em baixo”, desabafou.
Os funcionários denunciaram que a empresa não oferecia equipamentos de segurança, dos poucos coletes que existiam, alguns era para o peso de 35 a 55 kg, e o peso de cada homem é de aproximadamente 80 quilos. Ronaldo disse que já havia pedido para o encarregado pelo menos mais 20 coletes. “No meu ponto de vista o culpado é o mestre de obras, ele que causou tudo isso, e ele questionou que tinha colete pra todo mundo ali e não tinha colete, nós estávamos em 4 sem colete, eu, meu irmão, o rapaz que se afogou e o Nilton, e o colete que forneceram é pra 30 a 50 quilos nós pesamos de 80 a 90 quilos, um colete daquele não suporta um peso desses”, observou Ronaldo.
                  Os sobreviventes foram salvos pelo cacique da aldeia Tucumã, que descia o rio quando os avistou na margem do rio. Os coletes tinham apitos que foram utilizados para chamar a atenção do indígena, antes de serem resgatados, o cacique desceu m o rio para ajudar outros três companheiros que eram puxados pela correnteza.
A família soube do acidente no mesmo dia, o desespero tomou conta da esposa e dos três filhos, que passaram a noite em claro na esperança de notícias. Eliecir Gomes Lisboa, disse que a empresa falou que Leonildo tinha um seguro, o que não conforta a família. “Eles falaram que tinha seguro, tinha isso tinha aquilo, eu não quero saber do seguro deles, não quero saber de dinheiro, quero saber dele (marido) quero saber que traz ele pra gente o seguro não interessa, trazer ele é o que importa, é vivo ou morto eu quero é que traga ele pra gente”, desesperou-se.
                 Segundo a esposa, Leonildo não tinha mais intenção de continuar trabalhando na empresa, ele iria passar 30 dias e depois voltaria para cidade em busca de um emprego.
O Corpo de Bombeiro foi informado na manhã de segunda-feira do acidente, e logo após uma equipe composta por três bombeiros se deslocou para o local para fazer as buscas. Após 32 horas após o acidente o corpo de Leonildo Marques, 44 anos, foi encontrado. Leonildo deixa a esposa e três filhos, as gêmeas Ana Paula e Ana Claudia, 22 anos e Tiago Gomes, 24 anos.

FUNCIONÁRIO IRREGULAR

Chama a atenção o tratamento que era dedicado aos funcionários da construtora. O trabalhador Ronaldo de Jesus Bonfim, que atua na obra desde outubro de 2015, até o momento não tem a carteira de trabalho assinada. A CTPS de Ronaldo “encheu” e ele precisa de uma nova, mas devido ao trabalho ser longe da cidade e quando vem na cidade é nos finais e semana ele não conseguiu fazer uma nova. “Não estou com a carteira registrada porque eu peço para vim pegar minha carteira no Sine eles falam que é pra pegar no final do mês, chega no final do mês nós ficamos só 2, 3 dias na rua e o Sine não é aberto, no sábado e domingo não tem como eu pegar e estou sem registar na empresa esse tempo todo”, lamentou.
A reportagem do O Diário tentou contato telefônico com o empresário Leandro Luedcke, mas ele não foi encontrado no escritório, um funcionário não soube dizer aonde ele estava e nem passou o número do telefone celular para que fosse encontrado.

Dionéia Martins e  Altair Nery

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