Início Vida e Saude VÍRUS LUJO: patógeno emergente com taxa de letalidade de 80% preocupa cientistas

VÍRUS LUJO: patógeno emergente com taxa de letalidade de 80% preocupa cientistas

170
0
Google search engine

Patógeno matou quatro de cinco pessoas infectadas na Zâmbia e na África do Sul

Rodrigo Mozelli

Representação do Arenavírus
Pesquisadores temem que vírus possa se tornar algo como o da Covid-19 – Imagem: Billion Photos/Shutterstock

O vírus Lujo é um patógeno zoonótico emergente que pertence à família dos arenavírus, mesmo grupo do vírus Lassa. Identificado pela primeira vez em 2008, causou um surto com taxa de letalidade de 80%, matando quatro das cinco pessoas infectadas na Zâmbia e África do Sul.

O vírus pertence ao subgrupo “Velho Mundo” dos arenavírus, caracterizados por genomas de RNA e aparência granulosa sob microscópio eletrônico, semelhante a grãos de areia. O nome da família deriva da palavra latina arenosus, que significa “arenoso“.

Primeiro surto documentado foi altamente letal

  • O paciente zero foi uma agente de viagens de 36 anos de Lusaka (Zâmbia), que desenvolveu sintomas leves antes de viajar para a África do Sul para um casamento familiar;
  • Após retornar à Zâmbia, os sintomas se agravaram, sendo inicialmente tratada para suspeita de gripe e intoxicação alimentar;
  • Ela foi transferida de avião para Johannesburgo, mas morreu 13 dias após o início dos sintomas;
  • Um paramédico e uma enfermeira que cuidaram da primeira paciente durante e após a transferência também morreram;
  • Como a doença não foi imediatamente reconhecida como febre hemorrágica viral, procedimentos específicos de controle de infecção não foram implementados inicialmente.

Dois casos adicionais surgiram: uma faxineira que trabalhava no hospital onde a primeira paciente foi tratada e uma enfermeira que cuidou do segundo paciente. Esta última sobreviveu após tratamento com medicamentos antivirais, pois as autoridades de saúde já haviam reconhecido que estavam lidando com uma febre hemorrágica viral.

Vírus Lassa
O vírus Lassa, intimamente relacionado, assemelha-se a grãos de areia quando observado ao microscópio eletrônico de varredura – Imagem: NIAID via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Sintomas progridem rapidamente

Os sintomas da febre hemorrágica por vírus Lujo (LUHF) são semelhantes aos da febre de Lassa relacionada. Entre sete e 13 dias após a infecção, aparecem febre, dor de cabeça e dor muscular. Os pacientes tendem a se deteriorar rapidamente, apresentando erupção cutânea, inchaço facial e do pescoço, diarreia e dor de garganta.

Embora “hemorrágica” esteja no nome, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças explicam que sangramento não é um sintoma típico, diferentemente de outras febres hemorrágicas virais, como o Ebola.

Pacientes que evoluem para óbito tipicamente experimentam uma breve melhora antes de desenvolver problemas respiratórios, cardíacos e do sistema nervoso. A morte geralmente ocorre dez a 13 dias após o início dos sintomas.

Transmissão e hospedeiros do vírus ainda são estudados

Quando o primeiro artigo documentando o surto de LUHF foi publicado em 2009, ainda não estava claro como a primeira paciente havia se infectado. Arenavírus são conhecidos por saltar de roedores para humanos — a febre de Lassa é principalmente transmitida por meio do contato com ratos infectados da espécie Mastomys natalensis —, então, é provável que um hospedeiro roedor tenha desempenhado um papel aqui também.

Pesquisas posteriores identificaram outros arenavírus novos em populações de M. natalensis e camundongo pigmeu africano (Mus minutoides) próximos a assentamentos urbanos. Não está claro se algum desses vírus pode ter capacidade de se espalhar para humanos também.

A transmissão humano-a-humano pode ocorrer com LUHF, potencialmente a partir do contato com fluidos corporais de pessoa infectada. Um artigo de 2016 descobriu que “parece ocorrer nos estágios finais da infecção, talvez durante os últimos três dias antes da morte, uma janela de transmissão provavelmente menor comparada à doença pelo vírus Ebola”.

Este é um fator que provavelmente limitou o surto de 2008 a apenas cinco pessoas, mas cenários futuros poderiam ver maior disseminação se uma pessoa infectada fosse, por exemplo, buscar ajuda em uma clínica lotada em área densamente povoada. Outros fatores que poderiam precipitar um surto maior incluem deficiências imunológicas na população devido a infecções preexistentes, como HIV ou tuberculose.

Pesquisas buscam tratamentos específicos para o vírus

Em 2024, novas descobertas sobre como os arenavírus evoluíram vieram de um estudo que comparou as estruturas dos complexos de proteína spike dos vírus Lujo e Lassa. Essas proteínas ajudam os vírus a se ligarem às células humanas e podem ser alvos promissores para medicamentos e vacinas.

O vírus Lujo é o único arenavírus conhecido que usa a proteína humana neuropilina-2 para entrar nas células. Os autores do estudo conseguiram elucidar como a proteína spike do vírus se liga à neuropilina-2, o que eles disseram poder ajudar cientistas a desenvolver um “remédio pronto para uso” para um futuro surto de LUHF — algo que eles descrevem como “altamente desejável“.