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Família Sena se despede de Lico da Folia, o último patriarca de uma história marcada pela fé, união e tradição

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Aos 96 anos, Manoel Messias Sena da Luz deixa um legado de amor à família, devoção à Folia de Reis e ensinamentos que atravessarão gerações. Em Guiratinga, centenas de parentes e amigos se reuniram para o último adeus ao patriarca que fez da simplicidade, da fé e da alegria sua marca de vida.

Uma despedida que reuniu gerações e emocionou a família

O dia 19 de outubro de 2026 ficará marcado na memória da Família Sena como uma data de profunda saudade. Foi em Guiratinga, no interior de Mato Grosso, que Manoel Messias Sena da Luz, carinhosamente conhecido como “Lico da Folia”, foi sepultado aos 96 anos, encerrando uma longa jornada de vida, histórias, ensinamentos e dedicação à família e às tradições populares.

A despedida reuniu centenas de parentes e amigos vindos de diversas cidades mato-grossenses. Entre abraços, lágrimas, orações e lembranças, todos compartilhavam o sentimento de que não se despedia apenas um homem, mas uma referência familiar, um guardião de tradições e o último patriarca de uma geração que ajudou a construir a história dos Sena.

Lico partiu deixando a esposa, Maria Souza, seis filhos, 12 netos, 18 bisnetos e dois tataranetos. Contando ainda com 82 sobrinhos filhos e filhas dos seus irmãos e irmãs. Uma descendência que representa a continuidade de sua história e a dimensão do amor que semeou ao longo de quase um século.

Há despedidas que encerram uma presença física, mas não apagam uma história. A de Lico é assim: sua voz poderá silenciar, seus passos deixarão de percorrer os caminhos da Folia, mas suas lembranças continuarão vivas em cada geração que teve o privilégio de conhecê-lo.

O último patriarca de uma família construída sobre o amor

A história de Manoel Messias está entrelaçada à trajetória de uma família cuja maior riqueza sempre foi a união. Herdeira dos valores transmitidos por José e Josefa Sena, a Família Sena construiu, ao longo das gerações, uma história marcada pela compreensão, fé, respeito, partilha e amor.

Lico era o último dos onze patriarcas e matriarcas dessa geração. Sua presença nos encontros familiares representava muito mais do que a participação de um idoso querido: era a presença viva das raízes, da memória e dos ensinamentos que atravessaram décadas.

Em dezembro de 2022, durante o 3º Encontro da Família Sena, realizado em Guiratinga, quando estava com 93 anos, Lico esbanjava energia, alegria e disposição. O evento reuniu mais de 300 pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos, em uma celebração que teve a fé como fundamento e a convivência familiar como razão de ser.

Naquela ocasião, ele foi um dos grandes responsáveis pela descontração e animação da festa. Entre cantorias, brincadeiras e apresentações, sua presença demonstrava que a idade não havia apagado o espírito alegre de quem sempre encontrou na música, na família e na Folia de Reis motivos para celebrar a vida.

A Folia Lico Sena foi um dos pontos altos daquele encontro. Ao lado dos foliões, Lico ajudou a transformar o ambiente em um espaço de música, dança, devoção e emoção, reafirmando uma tradição que se tornou parte inseparável de sua identidade.

Um amor que encurtava distâncias e aproximava corações

O amor de Lico pela família ia muito além da convivência cotidiana. Ele gostava de estar perto dos seus, visitar os familiares e, especialmente, manter vivos os laços de carinho com os sobrinhos. Mesmo aos 96 anos, ainda pegava o telefone para ligar, perguntar como estavam e demonstrar, com gestos simples, que cada um deles tinha um lugar especial em seu coração.

Essa característica é recordada com profunda saudade e gratidão pela sobrinha Deusa Luz, que residia a quase dois mil quilômetros de distância do tio. Ela guarda com emoção a lembrança de quando, já com mais de 80 anos, Lico tomou a iniciativa de viajar sozinho para visitá-la. Um gesto que revela a dimensão de seu afeto e a importância que atribuía à presença da família em sua vida. Para Lico, a distância não era motivo para esquecer, mas um desafio a ser vencido pelo amor. Suas ligações, visitas e demonstrações de carinho deixam uma lição preciosa: os anos podem avançar e os caminhos podem ser longos, mas quem ama verdadeiramente sempre encontra uma maneira de se fazer presente. É essa lembrança, carregada de ternura e gratidão, que Deusa e tantos outros familiares guardarão para sempre do querido Lico da Folia.

Folia de Reis: uma missão de fé, compromisso e responsabilidade

Se a família era o grande alicerce de Lico, a Folia de Reis era uma de suas mais profundas expressões de fé e compromisso.

Mais do que uma manifestação cultural, a Folia Lico Sena representava uma tradição religiosa mantida com seriedade, disciplina e devoção. Seu compromisso era anual: de 24 de dezembro a 6 de janeiro, Dia de Santos Reis, os foliões percorriam as ruas e visitar as casas, levando cânticos, orações e a reverência ao nascimento de Jesus.

Fizesse sol ou chuva, a tradição precisava ser cumprida. Para Lico, não se tratava de uma atividade que alguém pudesse assumir apenas por vontade momentânea. Era necessário compreender o significado da missão e estar disposto a honrá-la com responsabilidade.

“DECISÃO DOLOROSA: sem Lico, a Folia de Reis não continuará, Reinaldo escolhe preservar o legado do pai”

Esse ensinamento tornou-se ainda mais evidente diante da dolorosa decisão de seu filho Reinaldo Souza Luz, que caminhou ao lado do pai durante os últimos anos, acompanhando-o diretamente nas atividades da Folia e dedicando atenção especial aos seus cuidados e à sua saúde.

Mesmo sendo alguém profundamente ligado à tradição, Reinaldo afirmou que não dará continuidade à Folia Lico Sena sem a presença do pai. Sua decisão não representa falta de amor pela manifestação, mas o respeito aos princípios que aprendeu com o próprio Lico.

Segundo o ensinamento paterno, a Folia de Reis é uma tradição muito séria e não deve ser assumida por quem não tenha o propósito de cumprir fielmente seus compromissos.

Reinaldo conhece o peso dessa responsabilidade. Por isso, diante da ausência daquele que foi seu companheiro de caminhada, prefere preservar a memória da Folia a assumir uma missão que, neste momento, entende não poder conduzir da maneira ensinada pelo pai.

É uma decisão dolorosa, mas profundamente reveladora do respeito e da admiração que sempre dedicou ao homem que lhe transmitiu valores para toda a vida.

Reinaldo: o filho que honrou o pai até os últimos momentos

Entre as muitas histórias que a partida de Lico deixa, destaca-se a relação de amor, dedicação e respeito entre ele e o filho Reinaldo Souza Luz(REI).

Reinaldo não foi apenas filho. Foi companheiro de caminhada, parceiro na Folia de Reis e presença constante nos cuidados com a saúde e o bem-estar do pai. Esteve ao seu lado, acompanhando de perto suas atividades e oferecendo a atenção que a idade avançada exigia.

Seu cuidado foi uma demonstração concreta de amor filial: aquele que não se limita às palavras, mas se revela na presença, na paciência, na dedicação e no compromisso de permanecer junto de quem tanto fez por nós.

Ao honrar o pai até os últimos momentos, Reinaldo também honrou os ensinamentos recebidos. E, ao decidir preservar a Folia como lembrança, demonstra que compreendeu uma das maiores lições de Lico: as tradições não sobrevivem apenas porque alguém assume seu nome, mas porque existem pessoas dispostas a respeitar seu verdadeiro significado.

O legado entre pai e filho, portanto, não se resume aos anos compartilhados na Folia. Está também no exemplo de fidelidade, cuidado e respeito que permanece como inspiração para toda a família.

Um quarto para guardar a memória da Folia e uma bicicleta que conta uma história

Mesmo diante da impossibilidade de dar continuidade à tradição nos moldes ensinados pelo pai, Reinaldo encontrou uma maneira especial de manter viva a memória da Folia Lico Sena.

Ele pretende reservar um quarto para guardar os pertences utilizados na manifestação cultural e religiosa. O espaço será preservado como lembrança para filhos, netos, bisnetos, tataranetos e futuras gerações, que poderão conhecer, por meio daqueles objetos, um pouco da história de um homem que dedicou parte significativa da vida à tradição de Santos Reis.

Cada instrumento, cada peça e cada objeto guardado carregará consigo a lembrança de noites de cantoria, visitas às casas, encontros familiares e momentos de devoção.

E entre essas recordações estará também um símbolo muito particular da disposição e da vitalidade de Lico: sua bicicleta, que ele pedalou até os 96 anos de idade.

A bicicleta, tão simples aos olhos de quem não conhece sua história, representa muito mais do que um meio de transporte. É um retrato da autonomia, da força de vontade e do espírito ativo de um homem que continuou percorrendo seus caminhos mesmo em idade avançada.

Preservar esses objetos será uma maneira de permitir que a história continue sendo contada. Porque, quando os mais velhos partem, os objetos que acompanharam sua jornada ganham um novo significado: tornam-se testemunhas silenciosas de uma vida que merece ser lembrada.

Os encontros da Família Sena: uma herança de união

Ao longo dos anos, os encontros da Família Sena transformaram-se em momentos especiais de reencontro, confraternização e fortalecimento dos laços entre parentes que vivem em diferentes cidades.

Guiratinga recebeu seis dessas edições com a presença de Lico, que se tornou uma das figuras mais queridas e aguardadas das celebrações. Para muitos familiares, estar ao lado dele era também uma oportunidade de valorizar as próprias origens e manter viva a memória dos antepassados.

O 3º Encontro, por exemplo,  realizado em dezembro de 2022, foi especialmente marcante. Depois de três anos de espera, dificuldades e limitações impostas pelo período da pandemia, a família conseguiu reunir mais de 300 participantes.

A programação foi marcada por oração, partilha de alimentos, apresentações, brincadeiras, música, dança e, naturalmente, a presença contagiante da Folia de Reis Lico Sena.

A chuva que caiu naquela manhã impediu a realização de parte das atividades planejadas, mas não diminuiu o entusiasmo dos participantes. O encontro seguiu com refeições compartilhadas, apresentações dos diferentes ramos familiares, sorteios, cantorias e momentos de grande emoção.

Lico e Reinaldo estiveram entre os destaques das cantorias, envolvendo os presentes e mostrando como a música e a tradição tinham o poder de aproximar gerações.

Sendo todos os seis encontros realizados uma demonstração de que a união da Família Sena não se sustenta apenas nos laços de sangue, mas na disposição de preservar uma história comum, cultivar o respeito e transmitir valores aos mais jovens.

O sétimo encontro seria uma homenagem a Lico

A vida, porém, reservou à família uma mudança dolorosa de planos.

Depois de seis encontros realizados em Guiratinga reunindo centenas de familiares com a presença de Lico,  os familiares organizavam o sétimo encontro, marcado para o dia 20 de novembro de 2026. A edição seria especialmente dedicada a homenagear o patriarca, celebrando sua trajetória e a importância de sua presença na história dos Sena.

A intenção era reunir novamente a família em torno daquele que simbolizava a continuidade de uma geração e a força das tradições familiares.

Com sua partida, a 7ª celebração foi silenciada.

O que seria uma homenagem em vida transformou-se em saudade. O encontro que estava sendo preparado para celebrar seus 96 anos de histórias e ensinamentos deu lugar à dor de aceitar que o patriarca já não estará fisicamente entre os familiares.

Ainda assim, o significado dessa homenagem não desaparece. O amor que motivou sua organização permanece, assim como a certeza de que a história de Lico continuará presente nos encontros, nas fotografias, nas conversas e nas lembranças compartilhadas pelos familiares.

Talvez, em algum momento, a família volte a se reunir para celebrar sua memória. E, quando isso acontecer, sua ausência será sentida, mas sua história também será motivo de gratidão.

Uma vida que deixa ensinamentos para as próximas gerações

Aos 96 anos, Lico deixa uma herança que não pode ser medida em bens materiais. Seu patrimônio mais precioso está nos filhos, netos, bisnetos e tataranetos; nos amigos conquistados ao longo da vida; nas tradições que ajudou a preservar; e nos exemplos que ofereceu por meio de suas atitudes.

Sua trajetória ensina que a família é um bem que precisa ser cuidado, que a fé se manifesta também na perseverança e que uma tradição só permanece viva quando é conduzida com respeito e responsabilidade.

Ensina, ainda, que envelhecer não significa deixar de viver intensamente. Sua bicicleta, sua participação na Folia e sua presença nos encontros familiares são lembranças de alguém que conservou o gosto pela vida e o prazer de estar entre os seus.

A partida de Lico deixa um vazio que nenhuma palavra será capaz de preencher por completo. Mas deixa também uma história que merece ser contada, preservada e transmitida.

Porque um patriarca não se torna eterno por permanecer fisicamente entre os seus, mas por continuar presente nos valores que ensinou, nas memórias que construiu e no amor que deixou como herança.

O último adeus, mas não o fim da história

A despedida de Manoel Messias Sena da Luz encerra um capítulo importante da história da Família Sena. O último patriarca partiu, mas as raízes que ajudou a fortalecer continuam vivas em cada um de seus descendentes.

Em Guiratinga, centenas de pessoas se reuniram para dizer adeus a Lico da Folia. Cada abraço, cada lágrima e cada lembrança revelaram a dimensão do carinho conquistado ao longo de seus 96 anos.

Agora, sua voz permanecerá nas cantorias recordadas, seus ensinamentos serão revividos nas decisões dos filhos e sua imagem continuará presente na memória de todos que tiveram o privilégio de compartilhar sua caminhada.

A Folia talvez não volte às ruas sob o comando de quem a conduziu por tantos anos. Seus instrumentos poderão descansar, e a bicicleta que o acompanhou até os últimos anos poderá permanecer guardada como relíquia. Mas a história que esses símbolos representam não precisa terminar com sua partida.

Lico da Folia despede-se da vida, mas permanece na história. Permanece no amor de Maria Souza, no carinho dos seis filhos, no orgulho dos netos e bisnetos, na alegria dos tataranetos e na memória de uma família inteira que aprendeu com ele o valor da união, da fé e do respeito.

Que Deus conforte a esposa, os filhos, os netos, os bisnetos, os tataranetos e todos os familiares e amigos neste momento de profunda saudade.

E que, quando a lembrança de Lico vier acompanhada de lágrimas, também possa trazer um sorriso: o sorriso de quem se recorda de um homem que viveu 96 anos, amou sua família, honrou suas tradições e deixou marcas que o tempo não apagará.

Descanse em paz, Lico da Folia!

 O último patriarca partiu, mas seu legado continuará caminhando com a Família Sena, de geração em geração.

Redação Deusa Luz/ Folha de Colider